segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Família Reconstituída


Reflexão

Depoimento de uma mulher que superou a violência doméstica e o preconceito religioso
Meu nome G. V. 48 anos, casada pela segunda vez com um homem maravilhoso, e mãe de três filhos do primeiro casamento e avó de um menino que é minha riqueza.


Minha história não é diferente do que acontece ainda hoje em pleno século XXI. Separei-me aos 23 anos do pai de meus filhos por não suportar a violência, moral, física, psicológica. Já era evangélica na época isso em 1990, todos foram contra mim, pois “A mulher sábia edifica a casa e a tola destrói com as próprias mãos” Pv. 14:1


Não posso negar que tive apoio dentro da igreja de quem pensava diferente, mas a maioria preconceituosa e de até irmãs de igreja me difamavam. Não sabem o mal que me causaram. Enfrentei tudo e todos para ter meus filhos e cria-los contrariando todas as expectativas de que não seriam alguém, já que iriam ser criados sem pai.


Pois o que eu ouvia eram as malditas palavras: ”Ruim com ele, pior sem ele”. Preferi ficar só com meus filhos e enfrentar todas as adversidades, nós quatro e Deus.
 
Tachavam a minha família de incompleta e que deveria ser restaurada, que tinha que lutar pelo pai das crianças. Jovem, cansada e pensando nos meus filhos resolvi dar uma segunda chance, a pior loucura que fiz, não sei se foram piores os seis anos de casada ou os seis meses que resolvi dar a chance.


Minha filha na época com quase 9 anos um dia magoada e irritada me perguntou: “ Por que você voltou para o meu pai, não estávamos bem sem ele?” (sic).  Decidi a segunda separação, por fim abandonei a igreja, mas não abandonei a fé Naquele que tudo pode e me dava forças para viver. Tive vários quadros de depressão não tratados e que refletem em meu corpo hoje.

Perdoei a todos e não tenho mágoa de ninguém, escrevo esse depoimento, pois vejo que ainda hoje dentro das igrejas falam-se da família tradicional, só que eu fui uma família completa, eu e meus três filhos. Quando casei novamente eles já estavam adolescentes.

Eu sou um exemplo de que existem outras configurações de família e são felizes, e que necessariamente a família tradicional não funciona na maioria das vezes. Fui exemplo nas igrejas em que congreguei por ter meus filhos sempre ao meu lado e serem exemplos no meio dos jovens. 


Meus filhos são responsáveis, dedicados, o caçula está terminando a Faculdade, outro é professor, minha filha tem seu próprio negócio, trabalham e me respeitam, acima de tudo, me amam, e já ganhei genro e noras e um neto lindo.

Contrariamos a expectativas que como família “destruída” não criaria bons filhos.


Sou grata a Deus por que sem Ele eu teria cometido loucuras na hora do desespero, mas tive força e eu vi que poderia sair daquela condição que estava, e que para Ele o mais importante são as vidas, as pessoas.

Se você mulher estiver em uma situação parecida, não se desespere você não é OBRIGADA a sofrer como me disseram com a desculpa que pelos filhos tudo deve se suportar.
 
EU NÃO FUI TOLA, tolos foram os que me acusaram sem saber o que eu vivia. Sou uma mulher virtuosa e meu esposo depois de treze anos em que estava sozinha me encontrou, em seis meses nos casamos e no último dia 28 de novembro completamos doze anos de casados e felizes.


Somos uma família recomposta, reconstituída, ele veio também de uma separação e tem duas filhas e um neto amado. Escrevo esse desabafo para dizer que se as igrejas querem a família tradicional devem saber que nessas famílias mulheres sofrem violência doméstica, seus filhos vivem com um protótipo de pai na igreja e outro dentro de casa, isso é uma realidade.

Comentei uma vez sobre uma esposa irmã da igreja que apanhava do marido com o pastor e obreiros e obreiras da igreja, lastimavelmente a resposta que tive é que se ela fosse esposa de um deles provavelmente eles bateriam nela também, pois ela era “desobediente demais”.


Fiquem tranquilos sai dessa igreja há anos. Na época não tinha maturidade nem conhecimento o suficiente para ajuda-la. Deixo o meu apelo para que líderes religiosos tomem um posicionamento e repense a Bíblia contextualizando para os nossos dias, isso não é pecado, é AMOR.
EU EDIFIQUEI A MINHA CASA!


Por Lúcia Goulart

domingo, 3 de janeiro de 2016

Vamos refletir antes de sair postando tudo?


Bom, gente bonita, crítica e que gosta de refletir, aqui vai um daqueles meus textos que muitos acham chato e polêmico.

Está circulando na rede uma foto do Tammy no programa do Faustão e ao lado uma foto de uma mulher negra em vulnerabilidade social, puxando uma carroça com a qual ela coleta material para reciclar e com isso ela sobrevive e mantém sua família, sua aparência é notadamente pela foto de uma verdadeira sofredora. Não vou postar sua foto em respeito a ela não sei se em algum momento ela autorizou, Já o Tammy é figura pública.

Bom, aí tem uns dizeres na foto se referindo ao Faustão em seu programa assim: “O Faustão disse que "a" Tammy é guerreira por ter assumido que era gay para todo mundo, guerreira mesmo é essa mulher que luta com a vida para se sustentar e sustentar seus filhos. Quem acha curte e compartilha”

 Não preciso dizer que viralizou na internet. 

O interessante que essa polêmica partiu de uma jornalista que escreveu uma crônica e depois deu um depoimento na internet, eu não tive conhecimento disso, até que muitas pessoas com quem compartilho na rede social começaram a compartilhar a foto, e me incomodou muito, fui procurar mais a fundo acabei tendo acesso a um vídeo no Youtube, e em um trecho o que bastou para que eu nem terminasse de assistir o vídeo da jornalista da Ela dizia que guerreira era uma mulher que tirava o seio por causa de um câncer. Então para não querer ouvir mais absurdos parei.

 Aqui quero evidenciar alguns pontos de falso moralismo, preconceito e homofobia que passam despercebidos por muitos. Primeiro realmente Tammy não é "Guerreira" e sim Guerreiro, vamos fazer o favor de respeitar a identidade social que ele se identifica, e uma vez que ele se decidiu fazer a troca de sexo ele não é lésbica, ele é um homem transexual, quem tem alguma dúvida antes de qualquer comentário senso comum, faça uma pesquisa.

 Segundo, a mulher em vulnerabilidade social também não é uma guerreira, é uma lutadora sim, vítima da desigualdade social gritante em um sistema capitalista que precisa manter a miséria para que uma pequena parcela tenha altos lucros, ela é uma lutadora que sobrevive na miséria da desigualdade, é uma sofredora e jamais deveria ser usada como comparação nessa situação, quem fez isso deveria parar para pensar quais os motivos levaram aquela mulher e muitas outras pessoas a viverem nas mesmas condições que ela esta sobrevivendo não naturalizando, mas procurar meios de buscar uma transformação.

Pois com essa comparação a única coisa que fizeram foi "Naturalizar" a condição social em que aquela cidadã está vivendo. Terceiro, o que o Tammy fez com o corpo dele enquanto ainda estava na condição de mulher com sua namorada, e o quê a Gretchem fez, embora eu também acredite que seja uma objetificação do corpo da mulher, só diz respeito a elas e a mais ninguém. (Foi citado trabalhos que mãe e filha fizeram para público adulto).

Se somos contra, temos que levantar bandeira que empodere a mulher e mostre que ela é dona de seu corpo e ela faz com ele o que ela bem entender, e não o que a sociedade machista, moralista, patriarcal dite o que é certo ou errado. Devemos empoderar, dar autonomia para que deixe de ser objeto de poder masculino.

Quarto a mulher que é obrigada a fazer uma mastectômica ela não é guerreira por ter tirado o seio, mas por estar lutando contra um câncer, por não se entregar a essa doença cruel, sua família é guerreira por estar ao lado dela.

Quinto, precisamos saber que lésbicas, gays, transexuais, e toda comunidade LGBTS são sim guerreiros (as), e dizer que a condição do Tammy  é natural. 
O que não é natural é aceitar a miséria, naturalizar a condição da pobreza extrema como normal, como se uns nasceram para dar duro, ralar, que o homem nasceu pra ser “macho” e mulher pra se por no seu devido “lugar”, deixo claro que não faço defesa do Faustão e nem assisto seu programa.Mas tenho uma responsabilidade social e política de militância, feminista, com a população negra, e a comunidade LGBT que não poderia ficar calada.

Sexto fazer comparação com um transexual diminuindo seu sofrimento de viver em um corpo que ele não reconhece como seu, com outras situações dramáticas como a perversa vulnerabilidade social gritante em nossa sociedade, e que muitos só lembram dela para atacar grupos de minorias que não concordam, pois na verdade nunca fizeram nada para ao menos amenizar a dor dessas pessoas, e comparar com pessoas vitimas de CA, é no mínimo uma falta de sensibilidade, pois cada situação traz consigo seu drama particular e a comunidade LGBT deve ser respeitada, como as pessoas em vulnerabilidade social e os pacientes de CA. Todos os seres humanos devem ser respeitados e jamais usados como exemplo para atacar quem ou um grupo que você discorde por motivos morais, preconceituosos, e ainda levando outras pessoas através das redes sociais.

Pois bem, eu termino dizendo que Aberração é a forma que muitos veem o mundo, naturalizar a miséria, a desigualdade social, acreditar que sua transfobia, homofobia, é natural, que a miséria do mundo é natural, que comparar a dor de um paciente de CA para fundamentar o seu preconceito é natural é simplesmente um pensamento horroroso, cheio de ódio ao diferente.  

Espero que antes de desejar 2016 melhor, cheio de paz, amor a alguém reflita em seus preconceitos, para e procure se abrir para transformações. O ano só será melhor se as pessoas decidirem serem melhores.

Lúcia Goulart


Feliz 2016



Feliz 2016, com muito amor, paz, força, luta pela igualdade racial, de gênero, comunidade LGBT, acabando com essa frescura de meritocracia que eu nunca ensinei, sempre fui a favor dos injustiçados, excluídos, me sentei e me alimentei com os rejeitados.

As mulheres sempre estavam presentes comigo, e quando Marta sucumbida com os padrões da sociedade patriarcal e se sentia obrigada a servir aos homens, meus discípulos que me acompanhavam quando me hospedei na sua casa, de sua irmã Maria e de seu irmão, meu grande amigo Lázaro, Marta se sentindo injustiçada por Maria sua irmã quebrar as regras se sentando com eles e ouvindo o que eu ensinava, (o que não era comum na época) e reclamando comigo, pedindo que eu falasse para Maria ir ajuda-la, afinal servir é obrigação das mulheres. Eu disse a Marta :Maria escolheu a melhor parte. 

Conversei com a Samaritana que envergonhada por sua vida sexual, que para muitos era "imoral", indo buscar água no poço de Jacó ao meio dia, horário que ninguém iria pelo sol escaldante, e ela evitaria os olhares recriminadores reprovadores de sua conduta, eu conversei com ela sozinho, mesmo eu sendo um judeu e ela uma samaritana, dei a a ela uma palavra de conforto que reviveu sua alma mortificada pelo moralismo e fundamentalismo que mata. A mulher samaritana, na Bíblia que tantos hipócritas defendem, foi a primeira a anunciar os meus ensinamentos. 

Sou filho de uma mulher que engravidou antes do casamento, por "Ordem" de meu pai, "Deus", bom isso é questão de fé, mas foi fora da Lei de Moisés, e José meu pai adotivo aceitou. Os defensores da Bíblia hoje dizem que não seríamos uma família. 

Tenho em minha genealogia nome de cinco mulheres que pela Lei de moisés deveriam ser apedrejadas, indignas de possuir uma família, mas se isso tivesse acontecido eu não nasceria. A primeira foi Tamar está no livro de Gênesis 38:6-11, possivelmente era uma cananeia, isto é uma mulher negra, seu esposo filho de Judá faleceu sem ter deixado herdeiros, então Judá deu a ela seu segundo filho  para que gerasse filho em Tamar para que o nome do irmão não fosse apagado da terra, era um costume dos povos da época que se tornou lei mais tarde por Moisés, a Lei do Levirato (Dt. 25: 5-10). Mas esse segundo filho veio a falecer também sem engravida-lá. Judá pensando que essa mulher era amaldiçoada, mandou de volta para a casa de seus pais, coisa que ele não poderia fazer, pois a mulher quando casava passava a pertencer a família do marido, pois ele lhe disse quando meu filho mais novo tiver idade para casar lhe darei este . 

Porém a intenção era ser livrar dela.Judá passado alguns anos ficou viúvo, Tamar sabendo disso, e que também seu cunhado mesmo na idade de casar Judá não pretendia faze-lo, teve uma estratégia, ao saber que seu sogro, depois que o luto dele havia passado e viria com seu rebanho a cidade, tirou seu traje de luto, cobriu o rosto com um véu e ficou na estrada, Judá ao vê-la pensou que se tratava de uma prostituta e pediu para se deitar com ela. Ela perguntou o que ele daria em pagamento, ele respondeu que mandaria uma ovelha do rebanho, Tamar pediu um penhor, que foi o cajado, o selo e um lenço. Quando seus homens voltaram para entregar a ovelha não encontraram mais, e ao perguntarem disseram que nunca esteve uma prostituta naquele lugar.

Passado algum tempo descobriram a gravidez de Tamar e correram contar ao "Justo" Judá, ele disse tirem ela para fora para que seja queimada viva e pague o preço do seu adultério. "A sociedade patriarcal sempre foi tão justa, sempre teve um peso para os homens e outro para as mulheres". Ela mandou entregar os pertences que recebeu de Judá quando engravidou dele e disse do homem que pertence essas coisas é que eu engravidei. Envergonhado ele respondeu, "mais justa é ela do que eu, pois não cumpri com meu dever"

A outra mulher é a prostituta sagrada Raabe que ajudou os espiões enviados por Josué a Jericó, ela e sua família foram salvos e foram morar no  acampamento dos israelitas, ela se casou e está na minha genealogia também, lembrando que Jericó é uma das cidade de Canaã, Raabe era também uma mulher negra.

A terceira mulher é Rute, uma moabita, lembrando que a origem dos moabitas se deu com a destruição de Sodoma e Gomorra, a mulher de Ló vira sal, e Ló fica isolado em uma caverna com as duas filhas, essas pensando que o mundo havia acabado e somente eles sobrevivido, e para que o ser humano não fosse exterminado combinaram de embebedar o pai e uma noite uma dormiria com o pai e na outra a segunda filha dormiria, as duas conceberam e cada uma deu a luz a um filho que gerou um povo, uma gerou Amon pai dos amonitas, e a outra gerou moabe, pai dos moabitas. Rute era uma moabita, uma estrangeira, que perdeu seu marido, e permaneceu leal a sua sogra Noemi. E foi redimida por Boaz e gerou Obede avô de Davi, Boaz era neto de Raabe, provavelmente negro.

A quarta mulher foi Betseba, embora ela tenha sofrido mais uma violência do que cometido um pecado, mas como a cultura do estrupo é muito antiga e a vítima é sempre culpabilizada, com essa mulher não foi diferente. Davi estava desocupado, enquanto Israel guerreava e viu uma mulher se banhando a desejou e mandou busca-la, ela simplesmente foi, como dizer não para um rei naquele tempo? Depois de satisfazer seu ego de macho alfa dispensou seu brinquedinho. Passado algum tempo, Betseba manda-lhe avisar que estava grávida. 

E agora Davi? Simples, eu sou rei dou um jeito pra tudo, chamo Urias esposo de Beteseba, que estava na guerra, janto com ele e depois mando ele pra casa passar a noite com sua esposa, pronto, tudo resolvido, a única coisa que o rei não esperava é ter um súdito, e soldado leal que se recusaria estar com sua esposa enquanto amigos estavam morrendo na guerra. Plano B, Davi manda uma carta pelo próprio Urias para o General Joabe, para colocar Urias na frente da batalha, quando o exercito inimigo avançasse Joabe desse ordem para recuar deixando Urias sozinho para morrer. 

E foi isso que aconteceu.Mas, sabe quem todos culpam nessa história? Betseba, quanto a Davi, justificam suas "falhas", afinal ele foi um homem com o coração segundo a vontade de "Deus".

A quinta mulher, minha mãe Maria, uma mulher que engravidou antes do casamento por "Ordem" de meu pai, "Deus", bom isso é questão de fé, mas foi fora da Lei de Moisés, o que poderia lhe fazer perder a vida se José meu pai adotivo não tivesse fé e aceitasse a situação como está relatado nos evangelhos. Minha mãe, Maria também não teve escolha, ela simplesmente teve que aceitar, enfrentou várias dificuldades, e hoje todos dizem que foi um privilégio, pode ter sido, mas ela pagou um preço muito alto, afinal ser mulher nas condições que relatei aqui era um fardo triplicado, pois ser mulher nessa sociedade já era um sacrifício, e para completar, os defensores da Bíblia hoje dizem que não seríamos uma família. Resumindo não sei o que dê fato eles defendem, pois o que eles querem impor não foi nada do que eu jamais fiz ou ensinei.

Mandei vender tudo que tinham e dar aos pobres, compartilhar, não ajuntar riquezas na terra, sempre fui contra a exploração e acumulação de bens enquanto outros nada tinham. Essa tal de teologia da prosperidade vai contra tudo o que eu ensinei. Não vejo ninguém falar de amar ao próximo como eu amei, cuidar do pobre e necessitado, da viúva e do órfão.

Convivi com doentes, leprosos, questionei o modelo religioso vigente, não concordei com o modelo do Império Romano, mas meu objetivo principal era quebrar as amarras que faziam com que os judeus se submetessem ao império romano sem questionar através dos líderes religiosos. Pois enquanto o povo sofria os religiosos tinham privilégios por controla-loso a não se rebelar. Quebrei paradigmas, mostrei que o sábado foi criado para o homem e não o homem para o sábado. O sermão da Montanha foi o que mais de revolucionário eles já tinham ouvido. Ensinei a compartilhar. 

Quando disse: 28 Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. 29 Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. 30 Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.Eu me referia ao jugo e fardo imposto pelos líderes religiosos que tornavam a vida do povo muito pesada, sendo que nem eles que davam as ordens eram capazes de cumprir, eu convidei e convido de novo, fuja desses ladrões, salteadores, mercadores da fé, falsos moralistas.


Que esse ano de 2016 vocês possam estudar, se libertar de seus falsos pastores, eu não fundei religião, não instituí pastores, antes disse que Eu sou o verdadeiro pastor.E em Jo 10:10 [...] O ladrão veio para matar, roubar e destruir [...] eu não me referia ao diabo e sim aos falsos pastores, peguem o texto e leiam inteiro, não façam o jogo deles de pegar textos fora do contexto, eles fazem isso para manipular vocês e mante-los como presa fácil, assim tiram sua gordura e sua lã. 
Fiquem esperto, não fui comunista, mas entre o socialismo e o capitalismo podem me chamar de JC o comunista que andou pela Galileia. O revolucionário que ainda é exemplo de vida para muitos, mas que muitos distorcem meus ensinamentos.

Lucia Goulart

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Vozes da Esquerda



"Nesta carta singela desejo lhe dizer que me senti ofendido e desrespeitado como cidadão com seu discurso ao justificar seu voto a favor da prisão de Delcídio do Amaral, nesta manhã. A senhora disse que antes nos fizeram acreditar que a esperança venceu o medo. É evidente que a senhora se referiu à campanha eleitoral e eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem citá-lo."





CARTA ABERTA À MINISTRA CARMEN LÚCIA, DO STF


Por Dom Orvandil Moreira Barbosa - Cartas Proféticas - 25/11/2015


Prezada Ministra Carmem Lúcia

Nosso País acordou estupefato com a prisão de um senador da República. Por outro lado, alivio-me com a prisão de um banqueiro, um dos mais ricos do Brasil.


Não guardo intimidade com o pensamento do Senador Delcídio do Amaral em virtude de suas origens políticas, ligadas à privatizações e ao nefasto neoliberalismo. Porém, sua prisão nos coloca sob espanto pelo colorido de arbitrariedade em face da imunidade parlamentar de que gozam os eleitos pelo povo para ocupar cadeira na mais alta casa legislativa.


Perdoe-me, ministra Carmem, por me dirigir a senhora sem o traquejo jurídico próprio dos advogados, já que não sou um e sem a formalidade de um tribunal, já que não pertenço a nenhum.

Aqui tenho o objetivo de questioná-la pelo que disse na 2ª turma do STF ao justificar seu voto na decisão do ministro Teori Zavascki ao ordenar a prisão do Senador Delcídio do Amaral e do Banqueiro André Esteves.


É de se esperar que os homens e as mulheres eleitos e eleitas sejam honestos, honestas, probos e probas nas suas atividades parlamentares, embora alguns afrontem e desrespeitem a sensibilidade social e a cidadania, como é o caso do Senador Ronaldo Caiado, que frequentemente usa camiseta amarela com os sinais de 9 dedos, em deboche a deficiência física do ex-presidente Luiz Inácio Luiz da Silva, sem que seja incomodado em momento algum por esse preconceito e crime.


Nesta carta singela desejo lhe dizer que me senti ofendido e desrespeitado como cidadão com seu discurso ao justificar seu voto a favor da prisão de Delcídio do Amaral, nesta manhã.


A senhora disse que antes nos fizeram acreditar que a esperança venceu o medo. É evidente que a senhora se referiu à campanha eleitoral e eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sem citá-lo.


E vencemos mesmo, ministra Carmem. Milhões de brasileiros fomos ameaçados com o estouro do dólar, com a fuga dos empresários que investiriam em outros Países abandonando o Brasil ao desemprego e à pobreza. Uma atriz da TV Globo apareceu em noticiários e na propaganda eleitoral do PSDB fazendo caras teatrais de assustada e dizendo: “ai, estou com medo”. Pois vencemos essa tentativa. Os milhões de votos investidos em Lula transcenderam fronteiras partidárias para afirmar nossa esperança contra as ameaças rasteiras e desonestas. Vencemos o medo, com muita esperança. O Brasil se sentiu recompensado com essa vitória. A senhora sabe!


Como cidadão e como povo me sinto ofendido e agredido em minha esperança e em minha fé com essa sua fala, para mim irônica e sem nenhuma relação com o mensalão da mídia, com muitos casos dúbios e influenciados pela opinião publicada.


A senhora carregou sobre a ironia sem nexo ao afirmar que “agora o escárnio venceu o cinismo”.
Qual a relação do possível crime do Senador Delcídio do Amaral, nem investigado totalmente e, muito menos julgado e condenado, com a vitória da esperança em 2002?


A senhora quer nos envolver em todos os possíveis crimes de Delcídio? A senhora falou pensando em investigação e condenação do ex-presidente Lula, o candidato a respeito de quem se usou o slogan “a esperança venceu o medo”? A senhora já sabe, mesmo sem julgamento, que o Senador Delcídio do Amaral é criminoso, até mesmo antes da manifestação da casa onde ele é parlamentar?
Na fundamentação de seu voto a favor da prisão do aludido senador a senhora asseverou que “ agora o escárnio venceu o cinismo”.


Pergunto se o seu voto não se referia a um senador? Se se referia ao Senador Delcídio do Amaral qual a relação da ironia com os votos de milhões de brasileiros que tiveram esperança de mudar aquela realidade triste de desemprego, de miséria e de pobreza em 2002?


A senhora ameaçou quem ao afirmar posteriormente que “criminosos não passarão sobre a justiça”, alertando a todos do mundo da corrupção?


Perdão, ministra, mas a minha ofensa também vem do fato de a senhora misturar ironicamente fatos e valores sem nenhuma relação, sendo que a esperança realmente venceu o medo e sempre vencerá as vilanias da classe dominante, principalmente da rapinagem dos poderosos internacionais, que atuam por meio de jagunços nacionais.


Pior, a sua referência de falso senso de oportunidade choca por estabelecer nexos irreais entre um senador atual, preso acusado de atrapalhar investigações, com toda a força da esperança de um povo.
Choca mais o fato de a senhora não fazer nenhuma menção ao banqueiro André Esteves, dono do Banco BTG Pactual, também preso como suspeito de fazer uma operação polêmica na área internacional da Petrobras, ao comprar poços de petróleo na África, sendo ele um dos homens mais ricos do Brasil, um País pobre e, mesmo assim, de esperanças que vencem os medos.


A senhora não disse nada sobre André Esteves foi pelo fato de ele ser banqueiro e rico? Haveria na senhora algum senso de seletividade, como o há na mídia que reforçou com grande destaque as suas palavras?


Enfim, perdoe-me pela ousadia de exercer o direito de questionar, de me indignar contra as seletividades e contra o deboche em relação ao povo que tem esperança, apesar do medo que diuturnamente lhe impingem.


• Abraços críticos e fraternos na luta pela justiça e pela paz sociais.
• Dom Orvandil, OSF: bispo cabano, farrapo e republicano, presidente da Ibrapaz, bispo da Diocese Brasil Central e professor universitário, trabalhando duro sem explorar ninguém.


Postagem original em "Vozes da Esquerda".

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Que mundo é esse?


Tenho andado com um sentimento que borbulha dentro de mim, que revolta, enoja, lamento, entristeço, me deixa impotente. Depois do caos vai me revigorando aos poucos, vou sentindo minhas forças retornando, e o terremoto de sentimentos dando lugar à razão, então começo a pensar como posso ser útil nesse mundo de tanta maldade?

Não sendo como eles? Tentando fazer que outras pessoas pensem diferente? Várias crianças mortas quando um bote vira em pleno oceano com refugiados, aquele bote que lhes trouxe a morte, antes representava a esperança de vida, um menino indígena queimado vivo por fazendeiros brigando pela posse de terras... Refugiados haitianos sendo baleados por pessoas aparentemente de classe média, diga-se pelas testemunhas que viram seu carro de luxo, baleadas por serem imigrantes.

Uma crise econômica conjuntural no mundo, e aqui no Brasil uma crise ainda pior, uma crise política, racista, homofóbica, xenofóbica, a síndrome da Casa Grande persiste em reviver seu passado escravocrata, não se deram conta que não existem mais senzalas. Não existem privilégios, o povo luta para que os Direitos a tanto negado, agora seja de igual modo a todos.

O capitalismo está em convulsão, mas não está em estado terminal, é um mal que se regenera através do sacrifício de muitos. Da imagem do menino afogado a beira da praia, do menino indígena queimado vivo, dos haitianos baleados, das guerras no oriente, dos conflitos necessários para que se continue a comercialização bélica. Dos refugiados em desespero que se sujeitam embarcar em um bote. “Ou se morre no seu país ou se não morrer no meio do oceano, quem sabe poderá viver em outro lugar?”

O socialismo é uma utopia distante e depois da queda do muro de Berlim para muitos foi enterrado de vez. Mas eu gosto de ser utópica, me faz lutar por algo melhor. Galeano disse que quando andamos dez passos para aproximarmos da utopia, ela de nós dez passos se afasta. Ela é sábia, faz isso para não deixarmos de busca-la, persegui-la. Sem essa busca como o mundo poderá ser melhor?

Estou muito triste com tantos acontecimentos nefastos, mas não posso me abalar, tenho que ser alguém, com outros "alguém" que possuem a mesma utopia e juntos lutarmos para melhorar o que pudermos melhorar.

Lúcia Goulart.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Debate Sobre o Aborto




Sou contra o aborto. Mas sou contra a criminalização do aborto também. O meu princípio moral e cristão não pode permitir que mulheres por motivos que desconhecemos e não nos cabe "julgar" outro princípio cristão, caiam nas mãos de clínicas clandestinas e morram.
                                                                                                                                                  "Sou a favor da vida" outro princípio totalmente cristão, se o aborto é inevitável legalizado ou não, ao menos sendo feito por vias legais poupará a vida da mulher e antes ela será acompanhada por uma equipe interdisciplinar de profissionais assistente social e psicólogo e outros que poderão apresentar outro caminho respeitando, contudo a sua liberdade de decisão.
                                                                                                                                        Enquanto não separarmos a moral do direito, não viveremos uma sociedade de respeito. Sabemos que em nossa sociedade uma mulher com recursos financeiros quiser fazer um aborto ela fará, irá a uma clínica com médicos conceituados, pagará pela consulta, pelo aborto, ficará de repouso na clínica e somente terá alta médica depois que estiver bem. 
                                                                                                                                     Ela não será denunciada, seu médico não será denunciado, e o procedimento feito em clínicas particulares não passará de um atendimento normal, corriqueiro. Mas e a mulher que não possui recursos? Ela irá procurar um "aborteiro" clandestino de "fundo de quintal", pagará também, mas bem menos que uma clínica particular, e somente Deus saberá se ela vai sair com vida desse lugar.  
                                                                                                                                      E se sobreviver terá complicações como muitas já tiveram, e irão parar em um hospital público, e se sobreviver será denunciada. Lembrando que essas clinicas clandestinas não respeitam o tempo em que pode-se abortar sem causar sofrimento, isso é, dentro das doze semanas de gestação que ainda não foi formado o sistema nervoso do feto.   
                                                                                                                                       Passado desse tempo o feto tem seu sistema nervoso formado e sofrerá com o procedimento. E o pior, muito dessas submetem o procedimento em mulheres que já estão até no sétimo mês de gestação. Isso não é mais aborto é infanticídio. Precisamos ter um debate sério sobre esse assunto, sem moralismo religioso.   
                                                                                                                                       Pois se os religiosos se importassem com a vida estariam preocupados com as mulheres que poderão vir a morrer enquanto o aborto é criminalizado.  Hoje o Senado Federal realizará a terceira audiência pública para discutir o assunto, o Senador Magno Malta é relator da pasta após a entrega da mesma pela Senadora Marta Suplicy. 
                                                                                                                              Instruira SUG 15 de 2014, que regula a interrupção voluntária da gravidez, dentro das doze primeiras semanas de gestação. 06/08/2015 - 09:00 - Anexo II, Ala Senador Nilo Coelho, Plenário nº 2 Que a população possa participar, discutir, debater com cidadania.                                                                                                                                                    Por Lúcia Goulart




terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Perigo de Uma Única História




Eu sou uma contadora de histórias e gostaria de contar a vocês algumas histórias pessoais sobre o que eu gosto de chamar "o perigo de uma história única." Eu cresci num campus universitário no leste da Nigéria. Minha mãe diz que eu comecei a ler com 2 anos, mas eu acho que 4 é provavelmente mais próximo da verdade. Então, eu fui uma leitora precoce. E o que eu lia eram livros infantis britânicos e americanos.

Eu fui também uma escritora precoce. E quando comecei a escrever, por volta dos 7 anos, histórias com ilustrações em giz de cera, que minha pobre mãe era obrigada a ler, eu escrevia exatamente os tipos de histórias que eu lia. Todos os meus personagens eram brancos de olhos azuis. Eles brincavam na neve.Comiam maçãs. (Risos) E eles falavam muito sobre o tempo, em como era maravilhoso o sol ter aparecido. (Risos) Agora, apesar do fato que eu morava na Nigéria. Eu nunca havia estado fora da Nigéria. Nós não tínhamos neve, nós comíamos mangas. E nós nunca falávamos sobre o tempo porque não era necessário.

Meus personagens também bebiam muita cerveja de gengibre porque as personagens dos livros britânicos que eu lia bebiam cerveja de gengibre. Não importava que eu não tinha a mínima ideia do que era cerveja de gengibre. (Risos) E por muitos anos depois, eu desejei desesperadamente experimentar cerveja de gengibre. Mas isso é uma outra história.

A meu ver, o que isso demonstra é como nós somos impressionáveis e vulneráveis face a uma história,principalmente quando somos crianças. Porque tudo que eu havia lido eram livros nos quais as personagens eram estrangeiras, eu convenci-me de que os livros, por sua própria natureza, tinham que ter estrangeiros e tinham que ser sobre coisas com as quais eu não podia me identificar. Bem, as coisas mudaram quando eu descobri os livros africanos. Não havia muitos disponíveis e eles não eram tão fáceis de encontrar quanto os livros estrangeiros,

mas devido a escritores como Chinua Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção da literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também podiam existir na literatura. Eu comecei a escrever sobre coisas que eu reconhecia.

Bem, eu amava aqueles livros americanos e britânicos que eu lia. Eles mexiam com a minha imaginação, me abriam novos mundos. Mas a consequência inesperada foi que eu não sabia que pessoas como eupodiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre o que os livros são.

Eu venho de uma família nigeriana convencional, de classe média. Meu pai era professor. Minha mãe, administradora. Então nós tínhamos, como era normal, empregada doméstica, que frequentemente vinha das aldeias rurais próximas. Então, quando eu fiz 8 anos, arranjamos um novo menino para a casa. Seu nome era Fide. A única coisa que minha mãe nos disse sobre ele foi que sua família era muito pobre.Minha mãe enviava inhames, arroz e nossas roupas usadas para sua família. E quando eu não comia tudo no jantar, minha mãe dizia: "Termine sua comida! Você não sabe que pessoas como a família de Fide não tem nada?" Então eu sentia uma enorme pena da família de Fide.

Então, um sábado, nós fomos visitar a sua aldeia e sua mãe nos mostrou um cesto com um padrão lindo, feito de ráfia seca por seu irmão. Eu fiquei atônita! Nunca havia pensado que alguém em sua família pudesse realmente criar alguma coisa. Tudo que eu tinha ouvido sobre eles era como eram pobres, assim havia se tornado impossível pra mim vê-los como alguma coisa além de pobres. Sua pobreza era minha história única sobre eles.

Anos mais tarde, pensei nisso quando deixei a Nigéria para cursar universidade nos Estados Unidos. I tinha 19 anos. Minha colega de quarto americana ficou chocada comigo. Ela perguntou onde eu tinha aprendido a falar inglês tão bem e ficou confusa quando eu disse que, por acaso, a Nigéria tinha o inglês como sua língua oficial. Ela perguntou se podia ouvir o que ela chamou de minha "música tribal" e, consequentemente, ficou muito desapontada quando eu toquei minha fita da Mariah Carey. (Risos) Ela presumiu que eu não sabia como usar um fogão.

O que me impressionou foi que: ela sentiu pena de mim antes mesmo de ter me visto. Sua posição padrão para comigo, como uma africana, era um tipo de arrogância bem intencionada, piedade. Minha colega de quarto tinha uma única história sobre a África. Uma única história de catástrofe. Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem iguais a ela, de jeito nenhum. Nenhuma possibilidade de sentimentos mais complexos do que piedade. Nenhuma possibilidade de uma conexão como humanos iguais.

Eu devo dizer que antes de ir para os Estados Unidos, eu não me identificava, conscientemente, como uma africana. Mas nos EUA, sempre que o tema África surgia, as pessoas recorriam a mim. Não importava que eu não sabia nada sobre lugares como a Namíbia. Mas eu acabei por abraçar essa nova identidade. E, de muitas maneiras, agora eu penso em mim mesma como uma africana. Entretanto, ainda fico um pouco irritada quando referem-se à África como um país. O exemplo mais recente foi meu maravilhoso voo dos Lagos 2 dias atrás, não fosse um anúncio de um voo da Virgin sobre o trabalho de caridade na "Índia, África e outros países." (Risos)

5:55Então, após ter passado vários anos nos EUA como uma africana, eu comecei a entender a reação de minha colega para comigo. Se eu não tivesse crescido na Nigéria e se tudo que eu conhecesse sobre a África viesse das imagens populares, eu também pensaria que a África era um lugar de lindas paisagens, lindos animais e pessoas incompreensíveis, lutando guerras sem sentido, morrendo de pobreza e AIDS,incapazes de falar por eles mesmos, e esperando serem salvos por um estrangeiro branco e gentil. Eu veria os africanos do mesmo jeito que eu, quando criança, havia visto a família de Fide.

Eu acho que essa única história da África vem da literatura ocidental. Então, aqui temos uma citação deum mercador londrino chamado John Locke, que navegou até o oeste da África em 1561 e manteve um fascinante relato de sua viagem. Após referir-se aos negros africanos como "bestas que não tem casas",ele escreve: "Eles também são pessoas sem cabeças, que têm sua boca e olhos em seus seios."

Eu rio toda vez que leio isso, e alguém deve admirar a imaginação de John Locke. Mas o que é importante sobre sua escrita é que ela representa o início de uma tradição de contar histórias africanas no Ocidente. Uma tradição da África subsaariana como um lugar negativo, de diferenças, de escuridão,de pessoas que, nas palavras do maravilhoso poeta, Rudyard Kipling, são "metade demônio, metade criança".

E então eu comecei a perceber que minha colega de quarto americana deve ter, por toda sua vida, visto e ouvido diferentes versões de uma única história. Como um professor, que uma vez me disse que meu romance não era "autenticamente africano". Bem, eu estava completamente disposta a afirmar que havia uma série de coisas erradas com o romance, que ele havia falhado em vários lugares. Mas eu nunca teria imaginado que ele havia falhado em alcançar alguma coisa chamada autenticidade africana. Na verdade, eu não sabia o que era "autenticidade africana". O professor me disse que minhas personagens pareciam-se muito com ele, um homem educado de classe média. Minhas personagens dirigiam carros,elas não estavam famintas. Por isso elas não eram autenticamente africanos.

Mas eu devo rapidamente acrescentar que eu também sou culpada na questão da única história. Alguns anos atrás, eu visitei o México saindo dos EUA. O clima político nos EUA àquela época era tenso. E havia debates sobre imigração. E, como frequentemente acontece na América, imigração tornou-se sinônimo de mexicanos. Havia histórias infindáveis de mexicanos como pessoas que estavamespoliando o sistema de saúde, passando às escondidas pela fronteira, sendo presos na fronteira, esse tipo de coisa.

Eu me lembro de andar no meu primeiro dia por Guadalajara, vendo as pessoas indo trabalhar,enrolando tortilhas no supermercado, fumando, rindo. Eu me lembro que meu primeiro sentimento foi surpesa. E então eu fiquei oprimida pela vergonha. Eu percebi que eu havia estado tão imersa na cobertura da mída sobre os mexicanos que eles haviam se tornado uma coisa em minha mente: o imigrante abjeto. Eu tinha assimilado a única história sobre os mexicanos e eu não podia estar mais envergonhada de mim mesma. Então, é assim que se cria umaúnica história: mostre um povo como uma coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão.

É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo,que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é "nkali". É um substantivo que livremente se traduz: "ser maior do que o outro." Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do "nkali". Como são contadas, quem as conta,quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder.

Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história, e começar com "em segundo lugar". Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente.

Recentemente, eu palestrei numa universidade onde um estudante disse-me que era uma vergonha que homens nigerianos fossem agressores físicos como a personagem do pai no meu romance. Eu disse a ele que eu havia terminado de ler um romance chamado "Psicopata Americano" - (Risos) - e que era uma grande pena que jovens americanos fossem assassinos em série. (Risos) (Aplausos) É óbvio que eu disse isso num leve ataque de irritação. (Risos)

Nunca havia me ocorrido pensar que só porque eu havia lido um romance no qual uma personagem era um assassino em série, que isso era, de alguma forma, representativo de todos os americanos. E agora, isso não é porque eu sou uma pessoa melhor do que aquele estudante, mas, devido ao poder cultural e econômico da América, eu tinha muitas histórias sobre a América. Eu havia lido Tyler, Updike, Steinbeck e Gaitskill. Eu não tinha uma única história sobre a América.

Quando eu soube, alguns anos atrás, que escritores deveriam ter tido infâncias realmente infelizes para ter sucesso, eu comecei a pensar sobre como eu poderia inventar coisas horríveis que meus pais teriam feito comigo. (Risos) Mas a verdade é que eu tive uma infância muito feliz, cheia de risos e amor, em uma família muito unida.

Mas também tive avós que morreram em campos de refugiados. Meu primo Polle morreu porque não teve assistência médica adequada. Um dos meus amigos mais próximos, Okoloma, morreu num acidente aéreo porque nossos caminhões de bombeiros não tinham água. Eu cresci sob governos militares repressivos que desvalorizavam a educação, então, por vezes, meus pais não recebiam seus salários. E então, ainda criança, eu vi a geleia desaparecer do café-da-manhã, depois a margarina desapareceu, depois o pão tornou-se muito caro, depois o leite ficou racionado. E acima de tudo, um tipo de medo político normalizado invadiu nossas vidas.

Todas essas histórias fazem-me quem eu sou. Mas insistir somente nessas histórias negativas é superficializar minha experiência e negligenciar as muitas outras histórias que formaram-me. A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história.

Claro, África é um continente repleto de catástrofes. Há as enormes, como as terríveis violações no Congo. E há as depressivas, como o fato de 5.000 pessoas candidatarem-se a uma vaga de emprego na Nigéria. Mas há outras histórias que não são sobre catástrofes. E é muito importante, é igualmente importante, falar sobre elas.

Eu sempre achei que era impossível relacionar-me adequadamente com um lugar ou uma pessoa sem relacionar-me com todas as histórias daquele lugar ou pessoa. A consequência de uma única história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes ao invés de como somos semelhantes.

E se antes de minha viagem ao México eu tivesse acompanhado os debates sobre imigração de ambos os lados, dos Estados Unidos e do México? E se minha mãe nos tivesse contado que a família de Fide era pobre E trabalhadora? E se nós tivéssemos uma rede televisiva africana que transmitisse diversas histórias africanas para todo o mundo? O que o escritor nigeriano Chinua Achebe chama "um equilíbrio de histórias."

E se minha colega de quarto soubesse do meu editor nigeriano, Mukta Bakaray, um homem notável que deixou seu trabalho em um banco para seguir seu sonho e começar uma editora? Bem, a sabedoria popular era que nigerianos não gostam de literatura. Ele discordava. Ele sentiu que pessoas que podiam ler, leriam se a literatura se tornasse acessível e disponível para eles.

Logo após ele publicar meu primeiro romance, eu fui a uma estação de TV em Lagos para uma entrevista. E uma mulher que trabalhava lá como mensageira veio a mim e disse: "Eu realmente gostei do seu romance, mas não gostei do final. Agora você tem que escrever uma sequência, e isso é o que vai acontecer..." (Risos) E continuou a me dizer o que escrever na sequência. Agora eu não estava apenas encantada, eu estava comovida. Ali estava uma mulher, parte das massas comuns de nigerianos,que não se supunham ser leitores. Ela não tinha só lido o livro, mas ela havia se apossado dele e sentia-se no direito de me dizer o que escrever na sequência.

Agora, e se minha colega de quarto soubesse de minha amiga Fumi Onda, uma mulher destemida que apresenta um show de TV em Lagos, e que está determinada a contar as histórias que nós preferimos esquecer? E se minha colega de quarto soubesse sobre a cirurgia cardíaca que foi realizada no hospital de Lagos na semana passada? E se minha colega de quarto soubesse sobre a música nigeriana contemporânea? Pessoas talentosas cantando em inglês e Pidgin, e Igbo e Yoruba e Ijo, misturando influências de Jay-Z a Fela, de Bob Marley a seus avós. E se minha colega de quarto soubesse sobre a advogada que recentemente foi ao tribunal na Nigéria para desafiar uma lei ridícula que exigia que as mulheres tivessem o consentimento de seus maridos antes de renovarem seus passaportes? E se minha colega de quarto soubesse sobre Nollywood, cheia de pessoas inovadoras fazendo filmes apesar de grandes questões técnicas? Filmes tão populares que são realmente os melhores exemplos de que nigerianos consomem o que produzem. E se minha colega de quarto soubesse da minha maravilhosamente ambiciosa trançadora de cabelos, que acabou de começar seu próprio negócio de vendas de extensões de cabelos? Ou sobre os milhões de outros nigerianos que começam negócios e às vezes fracassam, mas continuam a fomentar ambição?

Toda vez que estou em casa, sou confrontada com as fontes comuns de irritação da maioria dos nigerianos: nossa infraestrutura fracassada, nosso governo falho. Mas também pela incrível resistência do povo que prospera apesar do governo, ao invés de devido a ele. Eu ensino em workshops de escrita em Lagos todo verão. E é extraordinário pra mim ver quantas pessoas se inscrevem, quantas pessoas estão ansiosas por escrever, por contar histórias.

Meu editor nigeriano e eu começamos uma ONG chamada Farafina Trust. E nós temos grandes sonhos de construir bibliotecas e recuperar bibliotecas que já existem e fornecer livros para escolas estaduaisque não tem nada em suas bibliotecas, e também organizar muitos e muitos workshops, de leitura e escrita para todas as pessoas que estão ansiosas para contar nossas muitas histórias. Histórias importam. Muitas histórias importam. Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar malígno. Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade perdida.

 A escritora americana Alice Walker escreveu isso sobre seus parentes do sul que haviam se mudado para o norte. Ela os apresentou a um livro sobre a vida sulista que eles tinham deixado para trás. "Eles sentaram-se em volta, lendo o livro por si próprios, ouvindo-me ler o livro e um tipo de paraíso foi reconquistado." Eu gostaria de finalizar com esse pensamento: Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso. 

Obrigada.